Sunday, December 05, 2004
coisas antigas

estive a ler coisas antigas... e encontrei isto, que foi escrito muito antes de criar este blog:

tão desesperante... a lágrima a escorrer pela cara, marcada com os sonhos e pensamentos de esperança que parecem cada vez mais longe com o constante aumento do silêncio que engole palavras e rouba vidas. enquanto a boca se encolhe como se tentasse mostrar sofrimento, o corpo deita-se e tenta abraçar-se a si próprio para sentir alguma calor que consiga afastar toda aquela solidão que vai manchando cada parede e vidro do quarto. a esperança de um dia ser alguém mais forte derrubada pelos constantes golpes silenciosos de morte que vão invadindo o corpo sangrado de dor.
tudo em volta desaparece, tudo foge e tudo morre porque o rio de lagrimas vai subindo por um corpo de quem um dia já foi capaz de sonhar e sentir. longe estão os dias em que o nervosismo subia a espinha e borboletas voavam no estômago. agora só resta aquele enorme vazio de quem tenta esquecer e morre por isso. dias feios, mentes horríveis que olham para todo aquele espectáculo horrível de dor e solidão tão grandes que corrompem todo o silêncio sem falar. por um último momento de vida foi possível ver a imagem que durante tanto tempo deu toda a força para levantar e respirar, mas este é o último momento e já nada se pode salvar, a morte interior chegou.
com a mesma dor que entra sai, sai porque deixa o suplicante corpo pedindo morte viver para a mente quase morta sofrer mais do que devia, mais do que pode, mais do vive. aqui está a famosa salvação que se tornou na eterna condenação de uma eternidade possível de dor e lágrimas escorrendo por uma cara pálida de não ver ou sentir raios de luz. a famosa salvação que todos aclamavam com tanta certeza de felicidade acabou com uma mísera vida que vive sem viver, que vai morrer sem ter vivido. lágrimas enroladas em gotas de sangue mancham o lençol que se encontra debaixo de um corpo débil e solitário. cicatrizes de esperança cobrem todo o corpo que sem expressão olha para o tecto como se este olhasse o céu que mostra a eternidade do universo, mas em vez disso ele vê a eternidade do seu próprio sofrimento e da sua solidão que já se encontram presentes numa noite sem lua, num dia sem luz.
todo aquele desespero desesperante num momento de tristeza profunda e lágrimas ensanguentadas representou o fim de uma luta e o inicio de uma lenta e dolorosa morte, morte que segue uma vida sem sentido, morte que vem depois de uma encolhida súplica de oportunidade e felicidade, súplica marcada pelos constantes gritos de dor causados pelo sofrimento e lágrimas que cobrem aquele corpo negro de dor, um negro pálido, um negro que não é possível ver, apenas sentir, apenas sofrer por morrer tão profundamente e ficar vivo para sofrer outra vez.
uma morte de sentimentos que um dia saltaram, uma morte de esperança que um dia voou, uma morte de uma vida que merecia muito mais, uma vida que apenas conheceu a solidão de uma eternidade imaginável. um momento encolhido, uma súplica gritada, uma lágrima vertida, uma gota de sangue caída de lábios tão bonitos que nunca sentiram o calor do amor, de lábios de onde agora escorre morte putrefacta. isto é a história de um sofrimento sofrido, de uma esperança para sempre perdida nas profundezas de uma mente perturbada por ter morrido antes do corpo, por ter de esquecer o que a faz viver fazendo-a morrer. a história de lágrimas vertidas em forma de gotas de sangue, enroladas em morte avermelhada. a história de uma súplica que foi negada. a história de uma vida morta, uma vida a que foi negado todo o tipo de companhia, amor e felicidade.


escrito ao som de godspeed you! black emperor- hung over


Posted at 01:13 pm by tristeza

 

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